O Disfarce

Cansado da sua beleza Angélica, o Anjo vivia ensaiando caretas diante do espelho. Até que conseguiu a obra-prima do horror. Veio, assim, dar uma volta pela terra. E Lili, a primeira meninazinha que o avistou, põe-se a gritar da porta para dentro da casa: "Mamãe! Mamãe! Vem ver como o Frankstain está bonito hoje!". Mário Quintana

11 de fev. de 2013

Obra Literária




          Obra literária tem como definição a arte de criar e recriar textos, de compor ou estudar escritos artísticos; o exercício da eloquência e da poesia; o conjunto de produções literárias de um país ou de uma época; a carreira das letras. A linguagem é o veículo utilizado para se escrever uma obra literária.

              Já eu, depois de terminar a leitura de um livro que há muito comecei e que agora sei por que, demorei tanto a terminar de ler, defino “obra literária” como qualquer história, não que essa seja “qualquer história”, mas, qualquer história capaz de, como num feitiço, desses mesmo de filme de ficção, do qual sai uma mão, te agarra pela gola do que quer que esteja usando e o puxa, literalmente, para dentro de tudo aquilo. Eu explico.

                 Uma obra lhe abduz quando você se encontra em algum lugar e, de repente, ouve uma sirene, alta e contínua, dessas que tocam em fábricas para anunciar o horário do almoço e também ao final de expediente, e, ao ouvi-la ainda que por uma fração de segundos, embora eu ache que tenha durado um pouco mais que isso, durante esse breve momento lhe falte à certeza de quando e onde está exatamente.

                   Pois bem, estava eu, um dia desses, sentada em uma sala de espera, no sétimo andar, no centro da cidade, quando ouvi uma sirene como essa e devia estar soando bem próxima ao local, pois, o volume era alto.

                   Minha primeira reação, acompanhada de um arrepio que me percorreu o corpo eriçando os pelo da nuca foi esperar pelo estrondo que certamente abalaria as estruturas daquele prédio, depois me veio um nome: Liesel. Em seguida pensei: para onde correr, não temos abrigos antiaéreos e finalmente: calma, você não está em Molching, muito menos na rua Himmel, mas, de imediato, não consegui de forma alguma me comprazer do alívio que isso deveria significar.

                       Eu relutei em terminar a leitura dessa obra porque sabia que, fatalmente, muito poucos daqueles que há muito haviam deixado de ser para mim apenas personagens de uma história, iriam morrer e, sinceramente, eu sabia que iria guardar luto por todos eles, mesmo porque, agora sei, melhor do que antes, que esses personagens representam pessoas reais que viveram toda aquela tragédia de fato.


                              Você pode muito bem achar que tudo isso é um exagero, pode ficar incrédulo por eu estar abalada com a história de um livro enquanto tantas tragédias acontecem nesse momento, tantas vidas se perdem hoje.

                                Exatamente, essa é a questão: hoje! Claro que tudo isso me entristece, me arrasa. Se meus filhos estivessem envolvidos numa tragédia como a de Santa Maria eu certamente estaria como as mães de lá estão ou como ficou Frau Holtzpfel ao saber que seu filho Robert Holtzapfel não voltaria para casa, o que na verdade, dá na mesma, estão todas parcial ou, em alguns casos, totalmente destruídas, mas, pense, Frau Holtzpfel era só mais uma, entre as milhares de mães que nunca mais veriam seus filhos, assim como as mães de Santa Maria.

                               É fácil imaginar a dor de outras mães, quando se é mãe, a simples idéia de que alguma coisa possa acontecer com um filho seu dói fisicamente até os ossos. Não menosprezo de forma alguma a tragédia recém acontecida que também foi um fato que me perturbou essa semana e, certamente, ainda irá perseguir a todos por um bom tempo, quiçá, para sempre, apenas gostaria de me ater a falar sobre essa grande tragédia do passado.

                                 Resisti em terminar essa leitura, porque pensei que talvez se eu não lesse até o fim, Rudy não morreria, assim como os Hubermann, os Steiner. E Tommy? Meu Deus, quantos Tommys se foram por ali? Se não terminasse, quem sabe não viesse a saber que o holocausto havia sido uma realidade.

                                Terminei a leitura a caminho do trabalho e, inevitavelmente, cheguei ao inevitável, a rua Himmel não existia mais, nem nada a seu redor, nem seus amigos, seus livros, nada! Por mais que eu tente, e acredito não ser a única, não consigo entender uma pessoa como o Führer. Claro, tenho minha própria opinião e algumas possibilidades dançam em minha mente. Uma delas, por muitos pode ser considerada fantasiosa demais ou exagerada demais, sabe-se lá, mas penso que se o demônio existe ou existiu certamente Hitler foi uma de suas encarnações na terra.

                                   Acho que me entristeci por saber, na verdade sempre soube, mas dessa vez era como se eu estivesse lá, na rua Himmel durante o bombardeio, e soube como nunca soubera antes, que muitas Liesels, Rudys, etc. existiram, e sofreram, passaram fome, frio, lutaram e morreram. Que para muitos, bem de perto, a história de suas vidas acabou no meio de uma rua destruída ou num campo de extermínio.